Anônimo
Anônimo perguntou em Ciências e MatemáticaOutras - Ciências · Há 10 meses

Por que não é cientificamente possível ressuscitar quem já morreu?

Hoje em dia temos um monte de tecnologias então porque não é possível ressuscitar qualquer organismo que já tenha morrido?

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  • Há 10 meses

    Basicamente porque não só não temos tecnologia suficiente, como também porque, no caso de qualquer organismo que já tenha morrido, na imensa maioria dos casos, nós não teríamos nem ao menos dados suficientes para saber como trazê-los de volta e o que trazer, seja porque não existe mais qualquer vestígio deles, seja porque, mesmo tendo algum vestígio, o grau de deterioração deles é alto demais para que conseguiremos consertá-los, ou seja, por tudo no lugar.

    Para compreender melhor essa questão, primeiro, talvez fosse melhor definir o que seria a morte. Aqui cabe uma definição operacional simples e que já esclarece o problema:

    Caso entendamos morte como a cessação total e permanente de toda atividade vital, torna-se óbvio o porquê de não conseguirmos reanimar todo e qualquer organismo que por acaso tenha morrido: Simplesmente porque, se conseguíssemos reviver o ser vivo em questão, a atividade vital dele não teria cessado permanentemente e ele não estaria morto. Mas isso talvez não seja o suficiente para compreendermos de verdade o que está em questão.

    Vamos pensar apenas no caso humano. Historicamente, nossa habilidade de ‘trazer alguém de volta a vida’ (por exemplo, uma pessoa que tivesse sofrido uma parada cardiorrespiratória foi aumentando), forçando, inclusive, uma redefinição dos diagnósticos de morte, que eram originalmente definidos pela mera cessação da respiração, passando pela necessidade da constatação da parada cardíaca, até chegarem nos modernos métodos de diagnóstico de morte cerebral, que dependem de exames de neuroimageamento, EEGs etc. O ponto importante é que reanimar alguém que sofreu uma para cardíaca e ‘trazê-lo de volta’ para um estado consciente mais ou menos semelhante ao que ela estava antes é claramente desejável. Porém, as coisas já não são tão claras caso, ao recuperamos as capacidades cardiorrespiratórias do indivíduos, essa pessoa fique presa em um estado de coma irreversível ou mesmo um estado vegetativo permanente, como mínima ou nenhuma atividade cerebral superior consciente. Nesse caso, não faria muito sentido trazer esses indivíduos ‘de volta’. Seu coração continuaria batendo, ele continuaria a respirar com a assistência de aparelhos, mas não teria consciência e portanto não teríamos recuperado suas funções neurológicas superiores que possibilitariam que essa pessoa experimente subjetivamente a realidade. Portanto, o que importa é que consigamos restaurar a pessoa para um estado consciente e que consideremos minimamente digno de vida.

    O que acontece é que a consciência depende de um certo nível de atividade e integridade cerebral. Certos tipos de danos, sobretudo os mais persistentes e extensos, podem simplesmente destruir completamente as capacidades de pensar, sentir, lembrar e mesmo nossa personalidade. Esse nível de dano seria incompatível com qualquer ideia de reanimação que fosse eticamente sustentável e socialmente desejável. E aí temos um problema maior, mesmo que pudéssemos reparar tais danos, conseguindo restaurar padrões de conexões celulares entre neurônios a um nível molecular, para fazer isso, teríamos que saber quais padrões restaurar, sob o risco de trazer ou criar uma pessoa com memórias e personalidade diferentes ou sem memórias e personalidade alguma Precisaríamos sermos capazes de escanear os cérebros humanos previamente aos incidentes que ocasionaram as lesões, a um nível pelo menos molecular de precisão - o que é algo que talvez jamais sejamos capazes de fazer, pelo menos não sem destruir o cérebro com isso e, ainda assim, provavelmente perderíamos sempre alguma informação.

    É possível e até provável que, com o avanço de nossos conhecimentos em neurobiologia, bioengenheira de tecidos, microeletrônica e medicina, de modo geral, continuemos a conseguir reanimar pessoas em situações mais complicadas do que conseguimos atualmente e com danos mais extensos e sérios. Todavia, certamente, as dificuldades serão cada vez maiores, o que dificultarão nossa avanço mais e mais, já que, quanto maior for o nível e a extensão dos danos, mais chance de não conseguirmos devolver a pessoa para um estado consciente aceitável e que preserve a identidade, personalidade e memórias mais fundamentais do indivíduos, colocando limites ao que poderemos fazer. Por exemplo, se uma pessoa morre porque o cérebro dela foi completamente explodido não haveria nada que pudéssemos fazer para reanimá-la porque não haveria nada para reanimar.

    Mesmo que as especulações mais ousadas e exageradas de alguns ‘transhumanistas singularistas’ tornem-se verdade e conseguíssemos escanear nossos cérebros com perfeição, de preferência sem destruí-los no processo, e transformar essas informações e dados que alimentassem algum tipo de simulação em algum supercomputador quântico, problemas filosóficos surgiriam e seria difícil de argumentar que estaríamos trazendo a pessoa de novo. No máximo poderíamos afirmar que estaríamos criando uma cópia, mesmo admitindo que tal cópia pudesse ter uma experiência subjetiva indistinguível da que a pessoa original poderia se submetida a estímulos totalmente equivalentes aos da simulação, mas ainda assim seria uma outra entidade.

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