Flavia perguntou em Artes e HumanidadesHistória · Há 5 meses

quais foram as principais divergências religiosas de lutero em relação à doutrina católica que levaram ao movimento reformista?

2 Respostas

Classificação
  • Há 5 meses

    A divergência religiosa era uma só: a salvação da alma (da qual deriva a questão das indulgências).

    Essa era uma controvérsia bastante antiga dentro do cristianismo.

    No NT, a fé (em Cristo) é estabelecida como meio de se alçar a salvação eterna, uma vez que é pelo sacrifício de Jesus que os pecadores são perdoados.

    (esse perdão - representando a purificação - era simbolizado ritualmente pelo batismo)

    Mas aí surgia um problema: e os pecados cometidos depois do batismo? Ou então, como ficava a questão da pecaminosidade do homem APESAR da fé em Cristo?

    Nos primeiros séculos, existia uma solução prática era a penitência, em que os cristãos batizados se comprometiam com algum tipo de sofrimento ou humilhação pública para "compensar" os pecados cometidos.

    (ou então, como era crença comum, que a vida penosa de trabalho e exploração era um pagamento antecipado para a vida futura abundante, no céu)

    Daí vêm outras questões derivadas: qualquer pecado? existem pecados imperdoáveis? pecar em pensamento já é pecado? (a Bíblia diz que sim) crianças têm pecado? até que idade? o que é mais eficiente, a fé ou a penitência? o que significa a fé em Cristo para quem nasceu e em seguida já foi batizado, para purificar do "pecado original"?

    Para a teologia cristã, todo pecado (como qualquer mal praticado) provoca, ao mesmo tempo, uma ofensa (o sentimento de indignação do atingido) e um dano (que é o resultado desse mal).

    Quando fazemos algo errado a outra pessoa, podemos reparar a ofensa, pedindo desculpas ou nos solidarizando, enquanto o dano é reparado de outra forma; como, por exemplo, fazendo um carinho onde batemos sem querer.

    Com o pecado, é diferente.

    O que importa é a ofensa (a Deus); nenhum pecado, por mais grave que seja, pode trazer dano a Deus.

    Logo, a justificação em Cristo, pela fé, segundo Santo Agostinho, é suficiente para a salvação.

    O problema é o dano.

    O dano é com outras pessoas, que muitas vezes nem estão vivas para se reparar o que sofreram. No caso de um assassinato, como compensar? E a imoralidade?

    Para isso, a teologia cristã desenvolveu a ideia de uma reparação temporal por esse dano, que poderia se estender além da vida, até que a alma (já digna de salvação) estivesse também purificada de todos os seus pecados, isto é, do dano de seus pecados.

    A esse penitência além da vida deu-se o nome de Purgatório (de "purgar", purificar pelo fogo; não está na Bíblia, mas vem de interpretações alegóricas de alguns trechos)

    Aí é que aparece a questão das "boas obras", que podem ajudar nessa purificação - mais ou menos com o mesmo propósito das penitências.

    Atenção! "Boas obras" não é bom caráter, ou fazer o bem (como entendemos hoje). O que o clero e as pessoas entendiam eram obras de fé, como uma quantidade de orações, fazer caridade, peregrinar a lugares santos, tocar em relíquias, etc.

    Por exemplo, quando Urbano II convocou as Cruzadas (ou seja, ir para matar os infiéis), a sua promessa era a de absolvição - temporal - dos pecados, o que mais tarde recebeu o nome de "Indulgência".

    (Indulgência significa "perdão", mas formalmente era só a promessa de absolver o dano do pecado, implicando em menor sofrimento no Purgatório)

    A justificativa teológica para as indulgências (cerca de 1400) era que, como o Céu estava tão cheio de graças da Virgem Maria e dos Santos, e esse "tesouro" era administrado pela Igreja na Terra, cabia ao Papa (e somente a ele) determinar o que eram obras de fé e conceder indulgências por elas.

    (inclusive as "indulgências plenárias", que absolviam de toda a pena)

    Observe que essa justificativa apareceu em um momento bastante crítico para o Papado, e elas acabaram por se disseminar muito no século seguinte, contribuindo para reforçar a liderança espiritual dos papas após o chamado "cisma do Ocidente".

    Porém, no cotidiano, havia indulgências de diferentes tipos, concedidas por autoridades eclesiásticas locais, ou para incentivar atos de fé de âmbito local, e, inevitavelmente, a sua concessão por pagamento.

    (ou seja, como reconhecimento à prática da autoridade; nunca, é claro, como compra e venda)

    Em outros casos, compravam-se indulgências para liberar-se do cumprimento de uma norma da própria Igreja, como por exemplo, realizar a feira em um domingo ou dia santificado.

    Lutero já era um crítico (não era o único) dos desvios na prática das indulgências que eram comuns no seu tempo.

    Mas ele próprio, pessoalmente, refletia sobre a contradição entre a salvação pela fé e a pecaminosidade da alma; ou seja, ele não sentia a certeza da salvação, uma vez que todos confirmavam a necessidade de penitências e obras piedosas.

    Ele percebia, ao seu redor, uma convicção religiosa muito mecânica, em que Cristo acabava não tendo papel nenhum na salvação.

    Mas quando, em 1517, um pregador popular das indulgências chegou à sua cidade, em Wittemberg, Lutero reagiu com um opúsculo voltado ao próprio papa (através do bispo local, é claro), questionando os abusos que aconteciam.

    Não era incomum esse tipo de questionamento, dentro dos limites eclesiásticos, mas Lutero tinha desenvolvido sua crítica não só aos desvios, mas a própria ideia de indulgências; ou seja, ele não ia apenas contra a venda das indulgências, mas afirmava que mesmo de graça não tinham valor!

    Além disso, também permitiu que suas Teses fossem traduzidas e impressas, o que levou a questão interna também para o público leigo.

    Foi assim que foram se aglutinando outras questões religiosas (autoridade papal, validade das Escrituras, papel do clero, celibato, etc) e também outras de natureza social e política.

  • Há 5 meses

    Um dos motivos, era o pagamento de indulgencia ou seja dinheiro em troca do perdão divino, e ao fado do leigo católico não ter direito de ler a Bíblia , já que na época esse direito só era dado aos lideres religiosos.

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