Estadão, jornalão que declarou apoiar o SERRA, demite colunista porque escreveu só verdades?

Um charuto Por Walter Hupsel . 07.10.10 - 18h27 http://colunistas.yahoo.net/posts/5573.html Às vezes, disse Freud, um charuto é apenas um charuto. Esta frase é quase uma regra metodológica para as investigações da psicanálise. Se muitas coisas fazem sentido e merecem análise, algumas outras são desprovidas... mostrar mais Um charuto
Por Walter Hupsel . 07.10.10 - 18h27
http://colunistas.yahoo.net/posts/5573.h...
Às vezes, disse Freud, um charuto é apenas um charuto.
Esta frase é quase uma regra metodológica para as investigações da psicanálise. Se muitas coisas fazem sentido e merecem análise, algumas outras são desprovidas de significados psicanalíticos.
Um charuto pode não ter nenhuma relação com a “fase oral” ou com qualquer componente simbólico, pode ser apenas o prazer do gosto ou da nicotina percorrendo o corpo, apenas um mero charuto.
A dificuldade está em separar o que é apenas um charuto e o que pode significar outras coisas.
Às vezes fico pensando se não é uma espécie de “whishful thinking” às avessas, uma paranóia minha, um medo ou uma espécie de inveja do heroísmo de tempos de trevas, aquela coisa babaca e pueril de saudades de um tempo que não se viveu.
Juro que queria que fosse isso, mas a realidade insiste em me provar o contrário.
Estas eleições, que contrariando todos os institutos de pesquisa continuarão até o dia das bruxas, tem tudo para ser um divisor de águas na história brasileira.
Mas estas águas não são insípidas e inodoras, são mais sujas e fétidas que as do sólido rio Pinheiros em dias de verão paulistano.
Os exemplos são vários, mas ficarei com um que é paradigmático do nível de radicalidade ao qual chegamos neste pleito (e olhe que ainda só temos quatro dias de segundo turno).
Na terça-feira passada, começaram a rolar informações desencontradas que a colunista de “O Estado de São Paulo”, a grande Maria Rita Kehl, teria sido demitida do jornal por conta de um texto seu chamado “Dois pesos…”, no qual ela desconstroi os argumentos daqueles que são contra o Bolsa-Família, que querem contratar porteiros pagando R$ 200 reais por mês e ficam bravinhos porque não acham mais quem se disponha a aceitar o salário.
Mais de 24 horas depois e nenhuma confirmação ou uma negativa dos boatos por parte do jornal. Nada! Os boatos ganharam força nesse silêncio.
Esse fato, por si só, já seria revelador do tempo em que vivemos. As pessoas acreditaram que a colunista teria sido mesmo demitida por conta de uma opinião acerca de votos e escolhas legítimas. Arrisco dizer que em outros tempos isso não só não aconteceria (a demissão) como ninguém daria menor ouvido aos boatos, pois não faria sentido ter um colunista demitido por emitir uma opinião, salvo xingar seu patrão num texto publicado.
Se as pessoas acreditaram é porque para elas isso fez sentido, foi percebido como razoável e racional. A tese da demissão coube perfeitamente no contexto, sem nenhum descompasso, sem patologias ou alienação.
Tanto fez sentido racional que, ao que parece, a demissão foi confirmada na noite desta quarta-feira, pelo menos a filha dela publicou o fato num site. E numa entrevista publicada hoje no portal Terra, a psicanalista desabafa: “Fui demitida por um delito de opinião”.
Não quero apelar aqui a argumentos de autoridade (ela está entre os maiores intelectuais do país) e nem mesmo enveredar pelo caminho da liberdade que tem um jornal em só manter pessoas alinhadas à sua forma de pensar. É óbvio que os Mesquitas podem fazer o que quiserem com o seu papel impresso, inclusive jogar a credibilidade no lixo.
Mas, novamente, é revelador que a pluralidade da grande mídia tenha se restringindo tanto assim.
É mais revelador ainda se levarmos em consideração que o referido artigo começava da seguinte maneira: “Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição.
Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas.”
Maria Rita não imaginava, e nenhum de nós, que as palavras “digna” , “honestidade” e “discussão” apareceriam, com transparência e sinceridade, pela última vez nas páginas dos Mesquitas naquele sábado.
Atualizar: “O Estado de São Paulo” publicou o texto na véspera de uma eleição que parecia decidida. Posou de plural. A eleição se prolongou, a máscara caiu… A única razão que vejo é o tempo, é o contexto político destas eleições. Não entendo o porque de tamanha ojeriza e bílis terem aflorado nesta disputa eleitoral... mostrar mais “O Estado de São Paulo” publicou o texto na véspera de uma eleição que parecia decidida.
Posou de plural.
A eleição se prolongou, a máscara caiu…

A única razão que vejo é o tempo, é o contexto político destas eleições.
Não entendo o porque de tamanha ojeriza e bílis terem aflorado nesta disputa eleitoral (até tenho hipóteses e elas têm relação com um medo de radicalizarem contra uma figura carismática como Lula. Sem este, perderam os pudores…)
Mas vejo um clima pior que o de 1989, mais sectário e mais intolerante, um clima no qual cabe, perfeitamente, a demissão de Maria Rita.
A impressão que tenho é que na grande mídia não há mais espaço para o contraditório, para opiniões divergentes, que os jornais de circulação nacional se transformaram em espaços monolíticos de expressão de uma, e apenas uma, opinião. (Lembram da demissão do editor na National Geographic?)
Não me parece destempero ou atos isolados.
Este pode ser um ponto de não-retorno, um beco sem saída, e pode ind
Atualização 2: Este pode ser um ponto de não-retorno, um beco sem saída, e pode indicar o comportamento futuro do grandes grupos midiáticos: informações herméticas, fechadas, incólumes ao debate, não arejadas. Pode indicar a tendência da velha imprensa se tornar apenas máquinas de propaganda despudoradas e desesperadas para... mostrar mais Este pode ser um ponto de não-retorno, um beco sem saída, e pode indicar o comportamento futuro do grandes grupos midiáticos: informações herméticas, fechadas, incólumes ao debate, não arejadas.
Pode indicar a tendência da velha imprensa se tornar apenas máquinas de propaganda despudoradas e desesperadas para recuperar o poder que tiveram.
Talvez seja cedo pra arriscar como se comportarão no futuro, mas, ao mesmo tempo, esta parece ser a tendência, o potencial deletério.
Claro que, se forem verdades as minhas imaginações, novas formas de informação tomarão o lugar das velhas, numa eterna luta de gato e rato, como, aliás, já vem acontecendo.
Às vezes um charuto é apenas um charuto.
Muitas vezes não!
E se o charuto não for apenas um charuto, quem levou fumo não foi só a Kehl.
Fomos nós!
Atualização 3: <>Walter Hupsel é doutorando em Ciência Política pela USP e Professor de Ciência Política e Relações Internacionais na Faculdade Santa Marcelina. Nasceu em Salvador, torcedor doente do Esporte Clube Bahia e roqueiro até o fim.
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