Qual foi o processo de industrialização e urbanização do Brasil na metade do século XX e suas consequências.

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A matéria completa sobre o processo de industrialização e urbanização do Brasil na metade do século xx e suas consequências.
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  • Erica respondido 8 anos atrás
Depois da Segunda Guerra Mundial, a concorrência geopolítica entre os dois blocos antagônicos, liderados pelos EUA e a URSS, teve um papel decisivo na definição dos caminhos do desenvolvimento brasileiro e na forma em que enfrentou sua restrição externa crônica. O Brasil não teve posição relevante na geopolítica da Guerra Fria, mas mesmo assim foi colocado na condição de principal sócio econômico dos Estados Unidos dentro da periferia sul-americana. Não foi incluído na lista dos países cujo “desenvolvimento a convite” foi patrocinado – por razões geopolíticas – pelo governo norte-americano. Não houve Plano Marshall para a América Latina e nem um projeto de desenvolvimento regional apoiado pela ajuda e por acesso privilegiado aos mercados dos EUA. Ainda assim, o Brasil foi transformado no laboratório experimental de uma estratégia associada, pública e privada, de desenvolvimento, que contou com o apoio dos organismos multilaterais e com o investimento direto do capital privado de quase todos os países do núcleo central do sistema capitalista. Investimentos estes que foram o único item com que a economia brasileira pode contar em termos da conta de capital e que, ainda assim, tiveram um efeito duvidoso em termos de geração de divisas para o balanço de pagamentos, dado que se voltaram, em grande medida, para o mercado interno. Desta maneira, a geração de divisas e o alívio da restrição externa ficaram condicionados pelo crescimento das exportações.

No “período desenvolvimentista”, o Brasil manteve uma das mais elevadas taxas médias de crescimento mundial. A extensão da presença do Estado nessa estratégia de desenvolvimento criou a falsa idéia de um Estado forte ou “prussiano” que nunca existiu no Brasil, como tampouco existiu um projeto nacionalista agressivo de criação de um sistema econômico nacional. Na década de 70, este quadro sofre uma modificação importante graças à grande disponibilidade de liquidez internacional, que permitiu o afrouxamento da restrição externa, em termos absolutos. A abundância de crédito privado para os países em desenvolvimento permitiu uma aceleração das taxas de crescimento, e, no caso do Brasil, permitiu que ele avançasse no processo de industrialização iniciado nos anos 50/60, complementando sua matriz industrial com a produção de bens de capital e dos insumos necessários ao funcionamento da economia. A contrapartida deste processo foi um endividamento externo que foi além das possibilidades do balanço de pagamentos, sendo responsável em grande medida pelo estrangulamento do crescimento, no momento em que a economia brasileira foi submetida — no final dos anos 70 e início dos 80 — a quatro choques fatais: elevação das taxas de juros internacionais; recessão na economia mundial, deterioração dos termos de troca; e interrupção do financiamento externo depois da moratória mexicana. Foram estes os principais fatores que submeteram a economia brasileira a uma severa crise do balanço de pagamentos e que obrigaram os governos da década de 80 a fazer uma política de promoção ativa das exportações e de controle das importações, para dar conta dos serviços da dívida externa. Como conseqüência, o país viveu uma recessão seguida de redução de sua taxa média de crescimento, ao que se somaram várias desvalorizações cambiais e a aceleração da inflação.

Nos anos 90 — depois da renegociação das suas dívidas externas —, a América Latina e o Brasil assistiram a uma reversão nos fluxos de capital, viabilizada pela desregulamentação dos mercados financeiros e pela securitização das dívidas externas, o que muda inteiramente a configuração dos seus balanços de pagamentos. A abertura comercial, o fim das estratégias nacionais desenvolvimentistas e a sobrevalorização da taxa de câmbio determinaram uma explosão das importações e uma estagnação das exportações. Como conseqüência, consolidou-se um déficit crônico em conta corrente que passa a ser financiado pela conta de capital, cujos resultados positivos são induzidos pelos diferenciais entre as taxas de juros doméstica e internacional. Donde, como veremos mais à frente, a despeito de não haver uma restrição externa absoluta, a taxa de crescimento da economia brasileira tenha continuado baixa, menor do que a da década perdida de 1980. Por mais paradoxal que possa parecer, portanto, a reversão do fluxo de capital nos anos 90 não alterou o fato de que o Brasil ainda encontra na restrição externa o seu principal obstáculo ao crescimento. Mas agora, ao contrário das décadas anteriores, na ausência de uma política ativa de desenvolvimento, a única forma de ajuste da conta corrente no caso de algum choque externo adverso, passou a ser a redução das importações por meio de políticas fiscais contracionistas e de restrição ao crédito que levam, de forma circular, a uma nova a redução do nível de atividades da economia. A “era desenvolvimentista” no Brasil acabou na década de 90, com a adesão das elites econômicas e políticas brasileiras ao novo mito da modernidade, associado à utopia da globalização e viabilizada graças a onda expansiva de investimentos externos que retornam ao Brasil depois da renegociação da sua dívida externa. Hoje está cada vez mais claro que essa nova onda expansiva de investimentos externos, associada à abertura financeira e comercial da economia brasileira, não teve o mesmo dinamismo do período desenvolvimentista. O que é pior, passada uma década de ilusão, generaliza-se a convicção de que o mais recente ciclo de “globalização” econômico-financeira da economia brasileira vai perdendo fôlego e a economia brasileira volta a enfrentar-se com sua velha e permanente “restrição externa”, uma espécie de sinal indelével do lugar periférico do Brasil, dentro dos Impérios Britânico e Norte-Americano.

O projeto desenvolvimentista brasileiro de industrialização jamais esteve associado a qualquer idéia de potência. Mas pelo menos em dois momentos, durante as mudanças geopolíticas mundiais, que ocorreram nas décadas de 1930 e 1970, Vargas e Geisel tentaram definir uma política externa relativamente autônoma com relação aos Estados Unidos, e no caso de Geisel, sonhando com a criação de uma “potência intermediária” regional. Mas durante a década de 1990, a nova estratégia liberal de integração do governo brasileiro apostou no fim das fronteiras nacionais e no nascimento de uma nova sociedade civil e política internacional ou global. Seu diagnóstico era simples: a globalização era um fato novo, promissor e irrecusável que impunha uma política de abertura e interdependência irrestrita, como único caminho de defesa dos interesses nacionais, num mundo onde já não existiriam mais fronteiras nem ideologias. Na prática, promoveram uma transacionalização radical da estrutura produtiva e dos centros de decisão brasileiros, provocando uma fragilização do Estado e da economia brasileira, que ficaram ainda mais dependentes do capital privado internacional e do apoio do governo norte-americano, sobretudo nas situações de crise. Além disto, o governo brasileiro reatou as relações de cooperação militar com os Estados Unidos, que haviam sido interrompidas em 1977 pelo general Ernesto Geisel. Nestas condições, é fácil entender porque o Estado brasileiro se descobriu tão fragilizado, no momento em que a política externa norte-americana trocou — depois do 11 de setembro — a linguagem da globalização pela linguagem imperial do poder das armas. Como conseqüência, nesta conjuntura internacional, o Brasil acaba ocupando uma posição ambígua e sua desimportância geopolítica se vê contrastada pelo peso da dívida externa do Brasil e pela sua importância para os interesses privados norte-americanos. Basta lembrar que o Brasil detém hoje a segunda maior dívida externa do mundo, com cerca de 25% do total da dívida mundial.

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Outras respostas (1)

  • Czar respondido 8 anos atrás
    Foi o milagre brasileiro, no inicio do governo militar 1964-1978 quando a crise mundial do petroleo pos fim a onda desenvolvimentista do governo ditadorial.

    Fonte(s):

    Meu tio Formado em historia e meu primo Reitor da universidade que meu formou.
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