"História da fundação de luanda de capital da Angola"?

Sabemos que os portugueses do Congo começaram logo a explorar o sertão, percorrendo-o em todos os sentidos, com preferência particular pelas regiões que ofereciam vantagens comerciais de maior vulto. Foram os interesses mercantis que levaram os lusos a devassar a região de Luanda. Acumulavam-se aqui dois motivos... mostrar mais Sabemos que os portugueses do Congo começaram logo a explorar o sertão, percorrendo-o em todos os sentidos, com preferência particular pelas regiões que ofereciam vantagens comerciais de maior vulto. Foram os interesses mercantis que levaram os lusos a devassar a região de Luanda. Acumulavam-se aqui dois motivos destacados, era zona favorável ao resgate de escravos e fornecia o zimbo, pequenina concha com valor fiduciário.

Nos primeiros contactos que os portugueses tiveram com o rei de Angola, logo ele pediu ao seu monarca que lhe enviasse missionários, pois desejava que os seus povos aprendessem a nova doutrina. Se o requerimento não teve deferimento imediato, ficava a dever-se isso a diferentes causas, e entre elas a de não ser possível satisfazer todas as necessidades da missionação. Poderemos ainda admitir outra, não merecer este régulo tanta confiança como o do Congo, sobretudo como o famoso D. Afonso. Todavia, o rei de Portugal mandou-lhe alguns missionários jesuítas, a que se juntaram mais tarde os dominicanos, os carmelitas e os franciscanos, como veremos na devida altura.

O rei do Congo era um dos grandes potentados africanos, a quem outros obedeciam e pagavam tributos. Devemos ter isso em conta, e pensar que a sua qualidade de suserano , em relação a outros régulos nativos, fazia com que as relações com os portugueses fossem enormemente facilitadas. Sabe-se que o rei de Angola estabeleceu contacto com os lusitanos como consequência directa e imediata das boas relações mantidas com o primeiro.

Tendo sido feito em 1557 um insistente pedido do régulo angolano para que fossem enviados missionários, só foi atendido em fins de 1559. No dia 22 de Dezembro, saíram de Lisboa três navios, em que embarcara um emissário do rei de Portugal, Paulo Dias de Novais, e com ele dois padres jesuítas, o P. Francisco de Gouveia e o P. Agostinho de Lacerda, coadjuvados por dois irmãos auxiliares. Atingiram a barra do Cuanza no dia 3 de Maio de 1560, mantendo-se nesta região durante bastante tempo.

O rei de Angola recebeu mal os portugueses, embora se desconheçam pormenores das relações entre eles estabelecidas, pelos quais possamos fazer juízo mais exacto. Aquele que havia feito o pedido tinha já morrido; agora governava aqueles povo e aquelas terras outro potentado indígena, que apreciava menos a colaboração lusa e devia olhar os componentes da missão lusitana como agentes mais ou menos disfarçados do rei do Congo, adeptos da sua política e defensores dos seus interesses. Teve o cuidado de os conservar prisioneiros nas suas terras, durante bastante tempo, tomando medidas para que não conseguissem escapar-se. Tirou-lhes tudo quanto possuíam, incluindo mesmo os objectos de culto que haviam levado, e só mais tarde, em face de condições novas, consentiu que Paulo Dias de Novais saísse das suas terras. Mostrava-se agora disposto a dar facilidade de movimento aos portugueses, uma espécie de liberdade condicionada. Esperava mesmo que o ajudassem nalgumas dificuldades do seu governo e do seu reino, sobretudo na guerra.

Sabemos, todavia, que a permanência de Paulo Dias e dos seus companheiros, P. Francisco de Gouveia e P. Agostinho de Lacerda, em terras do Dongo foi de alguma maneira proveitosa. Embora tivessem já anteriormente tomado contacto com os portugueses, a presença tão prolongada da missão enviada pelo monarca português teve como consequência lógica que a superioridade da cultura europeia se acentuasse e impusesse aos olhos dos naturais. Sob o aspecto missionário, esta primeira actuação dos jesuítas, em Angola, teve o mérito de desbravar um campo que, mais tarde foi melhor arroteado, embora nunca se obtivessem colheitas abundantes. Em 1570, a pedido do rei D. Sebastião, foram mandados para o Congo quatro missionários dominicanos, três padres e um irmão auxiliar. Sob o aspecto escolar, alguma coisa puderam fazer apesar de as condições de trabalho serem extremamente deficientes. Faremos adiante referências mais concretas a este ponto.

Paulo Dias de Novais voltou a Portugal para preparar uma pequena expedição de auxílio ao rei que o retivera sob vigilância durante vários anos. Começa aqui, praticamente, a história da acção portuguesa nas terras da bacia do Cuanza e regiões limítrofes.

Na sua segunda viagem a Angola, Paulo Dias de Novais saiu de Lisboa no dia 23 de Setembro de 1574, segundo alguns autores, ou no dia 23 de Outubro do mesmo ano, segundo outros — entre os quais se contam Alberto de Lemos e Norberto Gonzaga. Viajavam com ele dois padres da Companhia de Jesus, o P. Garcia Simões e o P. Baltasar Afonso. Estes sacerdotes vieram e falecer no campo missionário, o primeiro deles poucos anos depois, no dia 12 de Maio de 1578 e o P. Baltasar Afonso já no século seguinte, em 29 de Março de 1603.

Aportaram primeiramente à Madeira e depois a Cabo Verde, tendo chegado a Luanda em Fevereiro de 1575 — no dia 11, segundo o P. Pedro Rodrigues, ou no dia 20, segundo o P. Garcia Simões, o que permitiu a alguns estudiosos fazerem diversas deduções e arquitectarem numerosas e habilidosas hipóteses.

Devemos ter em consideração, todavia, que a maior parte dos autores aceita a data de 25 de Janeiro como a do estabelecimento de Paulo Dias de Novais, vindo daí a antiga denominação da cidade, São Paulo de Luanda.

Uma das mais pesadas obrigações do estatuto ou regulamento de Paulo Dias correspondia ao encargo de fixar nas terras da sua capitania nada menos de cem famílias europeias, dando início a um processo de colonização e povoamento que se foi estendendo pelos séculos fora e que em determinados períodos teve entusiastas muito dedicados. Pode deduzir-se que os resultados obtidos não foram os que se esperavam, até mesmo porque o projecto não chegou a ter realização. A finalidade imediata desta colonização temporã era influenciar os nativos com os costumes e a cultura de origem europeia, levando-os assim a assimilar voluntaria e espontaneamente a civilização que os portugueses se propunham transplantar para estas paragens.

Uma das primeiras preocupações de Paulo Dias de Novais consistiu na tentativa de libertar o seu antigo companheiro de cativeiro e grande amigo, P. Francisco de Gouveia, que durante tantos anos sofrera as contrariedades de uma situação indesejável, pouco agradável, a permanência numa região de clima adverso, sem o apoio dos seus compatriotas e dos seus confrades, e que, apesar de tudo isso, se não deixou cair nos excessos e no desleixo característicos e facilmente explicáveis em circunstâncias idênticas. Não se põe de parte a hipótese de terem estado com eles outros portugueses, de condição social mais humilde, que lhes estavam subordinados, seus subalternos na jerarquia social; esse diminuto núcleo de companheiros de vicissitudes, amalgamado pela força das contrariedades e do sofrimento, deve ter contribuído bastante para afugentar o desânimo e alimentar e esperança na solução final do problema de todos.

Paulo Dias não conseguiu o veemente desejo de restituir à liberdade o piedoso jesuíta, pois o missionário faleceu na povoação de Dongo, à qual também se dá o nome de Cabassa, no dia 19 de Junho de 1575, embora se apontem outras datas prováveis do seu passamento. Alguns estudiosos das coisas angolanas aceitam que a antiga capital do reino de Angola, Dongo ou Cabassa, corresponda à actual povoação de Pungo Andongo.

O rei africano não era já o que retivera os enviados do monarca português. Sabe-se que o actual tinha sido discípulo, desde muito pequeno, do P. Francisco de Gouveia. Este não deixou de aproveitar a sua forçada e prolongada estadia entre os moradores para difundir civilização e espalhar o saber. Temos conhecimento de terem sido introduzidas algumas práticas civilizadas nos hábitos dos nativos, ao longo desta dezena e meia de anos de exílio, e não será ilógico pensar que as actividades intelectuais merecessem certa atenção aos jesuítas, se não através da aprendizagem da leitura e da escrita pelo menos de forma mais genérica e de maneira mais difusa. Não podemos conceber que se passasse tanto tempo de convivência sem que dos contactos mantidos ficasse algo de positivo. Não é possível imaginar que as populações locais, reconhecendo a superioridade de conhecimentos dos portugueses, deixassem de absorver influências, que a sua curiosidade deixasse de procurar explicações para coisas e fenómenos de que tinham visão bem diferente.

Nos mesmos dias em que se recebeu em Luanda a notícia da morte do jesuíta, Paulo Dias de Novais recebia a comitiva enviada pelo régulo para o saudar e, por certo, para estabelecer com ele uma plataforma de entendimento que se adaptasse às circunstâncias. Fora a Lisboa com o fim de trazer auxílio militar ao rei. Uma vez desembarcado em Angola, não era já o enviado desprovido de forças e à mercê de todas as imposições, era o chefe que estabelecia planos de domínio, traçava projectos de governo, impunha o peso da sua autoridade. Os temíveis jagas ou jingas continuavam a ser uma ameaça para o rei de Angola, e isso ajudaria Paulo Dias de Novais a estabelecer-se solidamente, aproveitando-se com habilidade do equilíbrio social que ele próprio ajudava a manter.

A recepção aos emissários do rei de Angola efectuou-se com luzimento, segundo protocolo próprio do meio, no dia 29 de Junho de 1575, numa das cabanas já levantadas no morro de S. Paulo; tão grande aproximação de datas pode, contudo, levantar algumas dúvidas. E podemos lembrar também que nesse dia se festejavam os dois apóstolos S. Pedro e S. Paulo; isso, se em parte pode servir de base para explicar o nome dado (S. Paulo), por outro lado leva-nos a perguntar qual o motivo porque não se homenageou o outro apóstolo (S. Pedro), que lhe era superior!?

Francisco Rodrigues afirma, na sua História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, que Paulo Dias de Novais deu princípio a um hospital e Misericórdia, em Luanda. Não deixa de ser provável que o encarregado de fundar um reino prestasse a possível atenção aos problemas da saúde, defendendo da doença e da morte os seus mais próximos colaboradores. O mesmo autor afirma também que a primeira igreja construída na cidade, no morro fronteiriço à ilha — onde também foi edificado um templo pelos primitivos portugueses que ali se fixaram —, era dedicada a S. Sebastião, grande devoção dos portugueses e patrono onomástico do rei de Portugal.

Em 23 de Fevereiro de 1580, chegavam a Luanda mais dois missionários jesuítas, mas só um deles, o P. Baltasar Barreira, era sacerdote. E em 25 de Janeiro de 1584 partiram de Lisboa mais dois padres jesuítas, o P. Jorge Pereira e o P. Diogo da Costa.

Os nativos convertidos adoptavam nomes portugueses, homenageando assim figuras de destaque. Sabemos que alguns neófitos de Luanda receberam no baptismo o nome de Paulo. O fundador da cidade e primeiro governador do território faleceu em Massangano, no dia 9 de Maio de 1589.

Em 11 de Março de 1593, entravam em Luanda quatro padres jesuítas, sendo um deles o visitador dos estabelecimentos da Companhia, P. Pedro Rodrigues. Mas nem todos se fixaram nesta província, pois alguns deslocaram-se de Angola para o Brasil, terra que então merecia as maiores e melhores atenções. Temos de admitir que outros missionários iam chegando a Luanda; o seu número, porém, não se somava inteiramente aos que tinham vindo antes, porque a morte ia fazendo os seus estragos. O clima africano exercia então uma influência notável sobre o organismo dos europeus, sendo frequente contrair doenças mortais de que ele era o principal culpado; eram muitos os que não conseguiam vencer a sua malignidade, cuja fama algo injusta ainda hoje corre.

Apesar das dificuldades encontradas, as primeiras tentativas da evangelização do gentio deram resultados apreciáveis e alimentaram esperanças lisonjeiras. Fizeram-se as primeiras entradas no sertão de Luanda, sofrendo as contrariedades que lhes estavam inerentes. Os padres que acompanhavam as tropas ao interior daquelas terras, àqueles inóspitos sertões, iam fazendo a evangelização que podiam fazer, em tão críticas condições, em tão problemáticas circunstâncias. Tanto assim que, em 1590, já se dizia haver aqui cerca de vinte mil cristãos.

Paulo Dias de Novais, em carta de 3 de Janeiro de 1578, dirigida aos seus familiares, anunciava que a conversão dos pretos de Luanda estava a processar-se satisfatoriamente. Os portugueses que aqui viviam é que se não comportavam muito decentemente, não se conformando de boa vontade com a rigorosa disciplina imposta pelos missionários, pois muitos deles preferiam viver livremente. As exigências que se faziam levavam alguns a sair destas terras, e o facto tinha como consequência lógica que o povoamento se não fizesse tão depressa como seria desejável, caminhando muito devagar...

Noutra carta do mesmo ano, datada em 23 de Agosto, comunicava ter ficado muito contente com a remessa de umas flautas que lhe tinham sido entregues; vieram muito a propósito, muito oportunamente... Os cristãos da terra cantavam já, com grande perfeição, algumas músicas religiosas bastante difíceis — a "Missa", de Morales, o "Pange Lingua", de Guerrero, e o "Motete de Santo André", cujo autor omitia, este a cinco partes ou vozes — e tocavam os instrumentos musicais com muita habilidade e perfeição, não só música religiosa como música profana, outras coisas ordinárias, segundo a sua expressão. Ao ouvi-los, recordava-se de seu pai — o que nos leva a concluir que deveria ser amante da boa música e virtuoso executante.

A África, a Ásia e a América devem muito aos missionários católicos. Bastantes vezes se realizou a ocupação e fixação pacíficas, e se garantiu a presença civilizadora europeia, à sombra do seu prestígio. Entre todas as terras em que os portugueses se fixaram, devemos salientar o Brasil como exemplo do muito que se ficou devendo aos padres; e, entre todas as congregações religiosas missionárias, podemos destacar a Companhia de Jesus, cujos métodos de acção lhe permitiam interessar-se mais do que qualquer outra pelas questões que parecem ser da ordem temporal e do domínio político. Contudo, não pode afirmar-se que tenham feito política à sombra da religião nem que tenham feito a missionação à sombra da política. Muitos dissabores lhes trouxe o seu desassombro em apontar erros e criticar defeitos! Sofreram perseguições violentas e foram alvo do ódio de muitos, ódio que atravessou os séculos e se manifesta ainda hoje. São exemplo vivo e eloquente da colaboração que muitas vezes houve entre a Cruz e a Espada. Não pode negar-se que a sua actuação foi inúmeras vezes decisiva para a conservação e enraizamento da colonização lusitana.

João Furtado de Mendonça, governador de Angola desde 1594 a 1601, não teve dúvida em afirmar um dia que, se não fosse a Companhia de Jesus, não existiria Angola. Isto mesmo comunicava um missionário, o P. Baltasar Afonso, em carta de 31 de Outubro de 1596, dirigida aos seus confrades da Europa. E, em recompensa dos serviços prestados à causa portuguesa, a Companhia de Jesus recebeu doações volumosas de diversos governadores, a começar pelas que o donatário primitivo, Paulo Dias de Novais, também lhes concedeu.

No dia 24 de Junho de 1592, chegava a Luanda novo governador-geral, D. Francisco de Almeida. Fora nomeado por carta régia de 9 de Janeiro desse ano e era portador de instruções muito especiais, inesperadas, verdadeiramente revolucionárias, que causaram alvoroço e descontentamento. Tinha-as recebido do monarca luso-espanhol, então D. Filipe II de Espanha, através do seu representante em Lisboa, o vice-rei de Portugal, cardeal-arquiduque Alberto da Áustria.

O rei pretendia reforçar a autoridade régia, mesmo no ultramar. Para isso, retirava as concessões anteriormente feitas e os privilégios que haviam sido outorgados pelos monarcas de Lisboa, seus antecessores. Essa redução de regalias causava desagrado em si mesma; além disso, devemos lembrar-nos que o facto de vir um rei, que muitos consideravam estrangeiro no seu reino, a alterar situações estabelecidas, aumentava ainda mais o descontentamento, já de si grande.

Os herdeiros de Paulo Dias de Novais e a Companhia de Jesus eram os maiores prejudicados pelas restrições decretadas. Os jesuítas defenderam energicamente o que consideravam direitos adquiridos e bens da congregação. Agora pretendiam defender mesmo alguns privilégios e interesses que anteriormente haviam desprezado, encargos de que quiseram libertar-se e cuja aceitação lhes foi imposta pela autoridade e prestígio de Paulo Dias e de alguns dos seus sucessores.

Referimo-nos à tutela que exerciam, junto do governador, dos interesses e negócios de alguns sobas, que estavam colocados sob a sua protecção e de quem foram nomeados defensores e advogados. Isso causava-lhes incómodos sem conta, criava-lhes inimizades que deviam e desejavam evitar, trazia-lhes dificuldades bem conhecidas e que pretendiam afastar, embora fossem bem recompensados com os tributos que os seus constituintes lhes pagavam, com a comissão recebida pela sua actuação.

A tutela em referência deveria tratar, antes de mais, dos problemas do tráfico esclavagista, a modalidade mercantil mais praticada e a que deixava maiores lucros, a mais importante de quantas aqui se exerciam, pode dizer-se que quase a única de volume considerável.

Este costume, segundo alguns autores que o estudaram pormenorizadamente, não foi introduzido aqui pelos portugueses, foi adoptado da estrutura tradicional gentílica. Os sobetas, quando residiam longe, tinham quase sempre, junto do régulo principal, uma espécie de embaixador ou procurador, um patrono categorizado que defendia os seus interesses, a troco de elevados réditos. Como a autoridade portuguesa substituiu para muitos a autoridade tradicional, uma boa parte desses sobas pretendeu ter em Luanda o representante que normalmente tinha junto do rei gentílico. Ora a Companhia de Jesus, pelo seu prestígio e pela influência dos seus membros, era para muitos o patrono ambicionado. Mas nem sempre as causas e pretensões que deviam defender eram justas, em face dos princípios cristãos, e isso fez com que algumas vezes procurassem esquivar-se, sendo levados a aceitar a incumbência pela pressão dos governadores e pela insistência dos interessados. Agora, porém, perante as restrições régias, que eles julgavam injustas e usurpadoras de direitos adquiridos, defenderam-se decididamente e talvez com um ardor e uma energia superiores ao conveniente. Os jesuítas reagiram como o comum dos homens; não ambicionam ocupar certos lugares mas uma vez ali estabelecidos só muito dificilmente acederão a pressões para os abandonarem.

No seu arrebatamento, o reitor do colégio, P. Baltasar Barreira, chegou a declarar que o governador-geral estava excomungado, por se apoderar de bens pertencentes à congregação, o que equivalia a dizer pertencentes à Igreja, segundo os jesuítas. O descontentamento era grande, mesmo fora do meio estritamente inaciano. O ambiente geral era desfavorável às autoridades. Sabemos qual foi o desfecho de tudo isto. O governador viu-se forçado a abandonar o lugar. Há quem diga que foi posto em ferros e enviado para o reino; outros dizem que, em dado momento, ao ver que a situação era insustentável, se retirou precipitadamente para o Brasil, entregando o cuidado do governo do território ao seu irmão D. Jerónimo de Almeida. Mas há também quem sustente que as forças vivas da cidade, em reunião efectuada logo a seguir à sua desistência, escolheram seu irmão D. Jerónimo para o substituir naquele alto cargo; este era um oficial destacado dos quadros militares e tinha a confiança dos elementos preponderantes da população luandense.

Não podemos, contudo, esquecer que estavam previstas e devidamente estabelecidas, para casos emergentes, as conhecidas e muito famosas "vias de sucessão", que talvez nesta conjuntura se verificaram, embora os estudiosos se lhes não refiram ao redigirem as suas obras.

Alguns autores, sobretudo os que admitem ter sido preso e remetido em ferros para o reino, via Brasil, concluem que os jesuítas de Luanda condenaram estes excessos, mas não puderam evitá-los. Segundo um documento que o autor da História da Companhia de Jesus menciona, o juiz da comarca de Luanda, Garcia Mendes de Vasconcelos, procurou evitar também este desacato e o desrespeito à autoridade principal do território, sem o conseguir.

O reitor da residência dos religiosos inacianos de Luanda, o já citado P. Baltasar Barreira, teve necessidade de se deslocar ao reino, e mesmo a Madrid, então a verdadeira capital da monarquia dualista, para se justificar e aclarar alguns pontos mal esclarecidos deste acontecimento, que se prende tanto e tão de perto com a acção civilizadora da Companhia de Jesus e em que ela ficara bastante comprometida. Saiu de Luanda em fins de 1592, fez a viagem pelo Brasil, como era habitual, e nos princípios de Maio estava em Lisboa, tendo entrado neste porto no dia 5 desse mês e do ano de 1593. Veio a reconhecer-se mais tarde que a actuação dos jesuítas não fora tão grave como se havia dito, sendo maiores as culpas atribuídas ao governador. Protegido por personagens de grande prestígio e influência excepcional, não sofreu qualquer castigo que fosse registado pela História. A Companhia de Jesus, por sua vez, saiu deste pleito perfeitamente justificada e até um tanto engrandecida.

D. Jerónimo de Almeida, sucessor no governo de Angola de seu irmão D. Francisco de Almeida, procurou emendar os erros anteriores, sem quebra do seu prestígio, dos direitos reais e seus decretos, que lhe competia defender e cumprir, mas respeitando até onde isso lhe fosse possível as doações anteriormente feitas. Conseguiu, assim, estabelecer um clima de paz e tranquilidade, que a vinda de seu irmão e dos alvarás régios que consigo trouxe havia quebrado. As reivindicações reais e as ordens do monarca acabaram por ser aceites e generalizadas, pouco tempo depois, fortalecendo a autoridade central e o poder soberano, concentrando tanto quanto possível os bens do erário público e o exercício da governação.

Não foi só com o poder civil que houve desavenças e questões, aliás justificadas em face das novas medidas preconizadas e de que acabámos de falar. Mesmo entre os membros do clero houve, por esta altura, desavenças e discórdias mais ou menos graves, questões pouco edificantes, em que os jesuítas também andaram envolvidos. Um dos superiores da Companhia de Jesus, em Luanda, chegou a ser preso; o provisor eclesiástico foi duas vezes declarado excomungado... A religião era arma que servia interesses particulares e satisfazia vaidades pessoais! Por fim restabeleceu-se a paz.

No dia 1 de Agosto de 1594, chegou a Luanda novo governador, João Furtado de Mendonça, que vinha substituir D. Francisco de Almeida e seu irmão D. Jerónimo. Fazia-se acompanhar por doze raparigas órfãs, educadas em Lisboa no recolhimento sustentado pela Misericórdia, ao qual se dá algumas vezes a denominação pouco exacta de Casa Pia — só dois séculos mais tarde se fundou a famosa instituição deste nome. Talvez algumas delas, se não todas, tivessem sido expostas na "roda", serviço da época que funcionava normalmente; se tem aspectos desumanos, censuráveis, mesmo condenáveis, também tem a sua face menos sombria, pois livrou muitas crianças de serem mortas à nascença pela própria mãe, quase sempre solteira. Este crime ainda hoje é bastante frequente, estigma vergonhoso do nosso século e da nossa mentalidade, superficialmente civilizada. A maior parte dos autores vê nestas raparigas as primeiras mulheres brancas que vieram para Luanda, embora haja quem conteste esta afirmação, com argumentos que, em boa lógica, não devem ser desprezados. Todas elas tinham casado ou vieram a casar aqui com colonos radicados nestas paragens. As recolhidas da Misericórdia eram frequentemente destinadas às terras ultramarinas, encontrando-se a sua presença também no Brasil.

Pretendia-se desenvolver o povoamento com elementos europeus e influenciar os costumes dos naturais com o exemplo que eles dariam. Aquele núcleo de senhoras brancas foi o fermento da fixação da família portuguesa em Angola. Foram as pioneiras de milhares de mulheres que nas cidades e nas fazendas deste vasto território trabalharam pelo seu engrandecimento e pela sua elevação social e aqui exerceram notável acção sob os aspectos moral e económico, higiénico e culinário, estético e sanitário. Em todos estes campos se carecia de reforma e de melhoria. Também desse modo se exerceu profunda e meritória acção educativa.

Os casos narrados e outros que poderiam ter sido relatados ajudar-nos-ão a compreender melhor o ambiente humano e social de Angola do primeiro século da sua História. Em boa verdade, esta começa no momento em que os portugueses aqui desembarcaram. O que se lhes seguiu foi, de certo modo, a continuação disto — uma série infinda de erros e questões, desavenças e intrigas. O homem é sempre homem, poderá melhorar um pouco as condições da convivência, mas não erradicará inteiramente as causas da discórdia, avançará alguns passos na senda do entendimento, mas não conquistará jamais a perfeição nas relações humanas. O muito ou pouco que se foi fazendo no decorrer dos séculos chama-se civilização, mas poderá chamar-se também educação, cortesia, correcção, fraternidade e compreensão.

As guerras com o gentio insubmisso dificultaram muito, como é natural, o trabalho da missionação, evangelização e civilização. Em certa altura, o rei de Angola aprisionou todos os portugueses a que pôde lançar mão e mandou-os matar, apoderando-se de toda a sua fazenda. Muitos outros elementos lusos correram o perigo de sofrerem igual sorte, inclusive autoridades destacadas.

Nas diversas campanhas bélicas em que tiveram de tomar parte, os padres missionários procuravam prestar aos combatentes a assistência religiosa que podiam prestar-lhes, confortando-os com os socorros espirituais. Além da sua função, especificamente religiosa, exerciam também o múnus de médico e a profissão de enfermeiro, por haver por vezes falta de práticos destas matérias.

Um autor aponta certo número de estorvos e dificuldades que entravavam a conversão dos nativos, procurando hipóteses de solução para esses problemas, que ordenamos como segue:

A influência dos costumes gentílicos era profunda, encontrando-se entre eles um ambiente cultual e religioso que lhes era próprio, de exigências morais pouco acentuadas;

A sensualidade do gentio era um entrave à difusão das novas crenças, sobretudo porque a doutrina católica se opunha aos seus hábitos mais correntes e costumes mais acentuados;

A pobreza em que viviam dificultava também a evangelização, pois esperavam receber do missionário o que lhes faltava ou lhes agradava, voltando à prática dos costumes gentílicos quando a nova fé lhes não trazia utilidade imediata e só lhes exigia sacrifícios;

O número de missionários era insuficiente para fazer face à missionação de povos cujas condições de vida, com deslocações frequentes e dispersão profunda, dificultavam a conversão e a perseverança;

A diversidade de línguas, sendo as nativas extremamente difíceis de dominar por não terem relação gramatical com as latinas, era outro obstáculo que não pode deixar de ser considerado por todos aqueles que quiserem fazer ideia exacta da situação missionária e das condições em que esta actividade era exercida.
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