PAZ E ESPADA
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PERGUNTA
Vocês poderiam me explicar esta frase??
"Eu não vim trazer a paz, mas a espada" (Mt X, 34 e Luc XII, 51).
RESPOSTA
Sua pergunta vem muito a propósito.
Alguns, romanticamente, pensam que Cristo é contra a guerra, e só querem a "paz". Uma paz que seria simples ausência de luta, fazendo de Jesus um pacifista.
Ora, o Evangelho apresenta uma visão completamente oposta a esse pacifismo sentimental, que é essencialmente injusto.
Nosso Senhor preveniu que por causa dEle haveria muitas divisões e lutas.
Já quando Ele foi apresentado no Templo, quarenta dias após o seu nascimento, o profeta Simeão disse a Nossa Senhora: "Eis que este menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição" (Luc. II, 34).
E o próprio Cristo nos disse:
"Julgais que vim trazer a paz à terra? Não, vos digo eu, mas a divisão; porque de hoje em diante, haverá numa casa cinco pessoas, divididas três contra duas, e duas contra três. O pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra" (Luc. XII, 51-53).
E em São Mateus se acha o mesmo texto sobre o qual você me consulta:
"Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios domésticos" (Mt. X, 34-36).
QUAL A RAZÃO DESSAS PROFUNDAS DIVISÕES TRAZIDAS PELA DOUTRINA DE CRISTO, QUE SEPARARÁ ATÉ MESMO OS PARENTES MAIS CHEGADOS?
É que a verdade atinge o mais profundo do homem. E, da adesão ou repulsa da verdade trazida por Cristo, nascem essas divisões.
O HOMEM, QUE PREFERE GOZAR A VIDA, NÃO TOLERA A VERDADE DE CRISTO, E ENTÃO PROCURA COMBATÊ-LA. Os que querem fazer antes de tudo, a vontade de Deus, aceitam a verdade anunciada por Cristo, e querem fazer a sua vontade, colocando o servir a Deus acima até do amor aos parentes. Os que querem fazer a sua própria vontade, rejeitam a verdade ensinada por Cristo, e procuram combatê-la. Daí, as divisões. Dai, a guerra continua, na História, entre os filhos de Deus e os filhos do demônio.
Essa é a guerra trazida por Cristo. Exatamente como foi predito no Gênesis, quando Deus disse, ao amaldiçoar a serpente:
"COLOCAREI INIMIZADES ENTRE TI (O DEMÔNIO) E A MULHER (A VIRGEM MARIA), ENTRE A TUA RAÇA (OS FILHOS DO DIABO) E A DELA (OS FILHOS DE NOSSA SENHORA), E ELE MESMA TE ESMAGARÁ A CABEÇA" (GEN. III, 15).
Isto é o contrário do que ensina o liberalismo, triunfante, hoje em dia.
O liberalismo, seguindo as mentiras pregadas por Rousseau, considera que o homem é bom, sem ter nenhuma inclinação para o mal e para o erro. Para Rousseau, não haveria pecado original, e, conhecendo a verdade, o homem a aceitaria sempre.
Ora, é o contrário disso que acontece.
NORMALMENTE, O HOMEM NÃO GOSTA DA VERDADE, PORQUE ELA LHE TRAZ OBRIGAÇÕES. A mentira é cômoda. A mentira não nos obriga a nada. Servimo-nos dela como de uma escrava, enquanto nos é conveniente. Desde que a mentira não nos convenha mais, nós a expulsamos, denunciando a sua falsidade.
A VERDADE É NOSSA RAINHA, QUE NOS IMPÕE OBRIGAÇÕES. Por isso, resistimos à verdade. E preferimos a mentira. Dai a verdade de Cristo ter produzido tanto ódio contra Ele.
Na história, Cristo estabeleceu a sua Igreja para ensinar a única verdade, e contra ela o demônio suscita sempre heresias, calúnias e mentiras. Por isso, a Igreja é chamada militante, e não pacifista.
Por isso, Cristo instituiu um sacramento, o Crisma -- que nos torna soldados de Cristo. É para seus soldados, para aqueles que compreendem que o crisma deve ser vivido na luta pela defesa da Fé que Cristo deixou a espada. E a espada que Ele nos deixou não é para fazer tricô. É para combater. Porque só o combate para estabelecer a verdade e a justiça impõe a ordem, e só com a ordem e a justiça existe a paz. A paz é obra da justiça. Opus justitiae, pax . Justiça e paz se beijaram (Sl.LXXXIV, 11) por que uma não existe sem a outra. E a justiça só se estabelece, muitas vezes, com o uso da espada. A espada da verdade.
Hoje só se fala em paz. Mas é a paz dos maus, fundada na injustiça. Cabe então muito aos que hoje falam de paz o que o profeta Jeremias dizia dos maus sacerdotes de seu tempo, que causaram a guerra e a destruição de Jerusalém:
"Eles curavam as chagas das filhas de meu povo com ignomínia, dizendo: Paz, paz, quando não havia paz" (Jer. VI, 14).
Porque "Não há paz para os ímpios, diz o Senhor Deus" (Isaias, XXII, 57, 21).
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli