Jeremias nasceu pelo ano 650 aC em um lugarejo chamado Anatot, cerca de 7 km a nordeste de Jerusalém. Descendia de uma família sacerdotal (cf. Jr 1,1). Sua atividade profética começou no décimo terceiro ano do reinado de Josias (627 aC). Pode-se dividir a missão profética de Jeremias em quatro etapas. A primeira desenvolveu-se no reinado de Josias e vai até 622 aC. Dos anos 622-609 aC nã o nos foi conservado nenhum dito do profeta. Nesta época o profeta parece ter silenciado, aguardando os frutos da reforma religiosa iniciada por Josias em 622 aC (cf. 2Rs 22,8–23,23). Mas logo após a morte de Josias na batalha de Meguido (609 aC), Jeremias recomeça sua pregação profética atacando corajosamente as injustiças e opressões praticadas pelo novo rei Joaquim (cf. Jr 22,13-19). Em 600 aC Joaquim rebela-se contra Nabucodonosor II, que cerca Jerusalém. Durante o sítio morreu o rei Joaquim. Nabucodonosor subjuga Jerusalém em 597 aC e arrasta para a Babilônia um primeira leva de exilados (cf. 2Rs 24,10-17). Durante o reinado de Sedecias (597-586 aC) desenvolve-se a terceira etapa de atividade de Jeremias. O profeta aconselha o rei a submeter-se ao rei da Babilônia. Mas o monarca judeu temendo o partido favorável ao Egito, rebela-se contra Nabucodonosor, que novamente ataca Jerusalém. É um período de grande sofrimento para Jeremias, considerado como traidor. Em julho de 586 aC Jerusalém é destruída, o rei e a classe dirigente exilados. A Jeremias é deixada a decisão de ficar na Palestina ou ir para a Babilônia. Jeremias prefere ficar em Jerusalém para ajudar seu amigo Godolias na reconstrução da comunidade. Após o assassinato de Godolias os culpados, temendo as represálias de Nabucodonosor, fogem arrastando consigo Jeremias. A partir desta data não possuímos notícia alguma de Jeremias. É provável que tenha morrido no Egito. Pode-se penetrar um pouco a personalidade profundamente religiosa e sensível de Jeremias através de suas confissões ou monólogos (cf. Jr 11,18-22; 12,1-6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18).
Texto: O livro de Jeremias em seu estado atual é composto de textos em forma poética e de textos em forma de prosa. Os textos em prosa apresentam em geral melhor estado de conservação do que os textos poéticos. Além disso a tradução grega do AT, chamada Septuaginta, apresenta um texto consideravelmente mais curto do que o texto hebraico massorético (2.700 palavras a menos). Este fato deve ser explicado em alguns lugares por erros de copistas (por exemplo, repetição em Jr 39,4-13; 51,44b-49a),em outros lugares por adições secundárias no texto, ainda não existentes no tempo da tradução dos LXX (cf. Jr 34,14-16).
Composição: O processo de formação do livro tem uma história longa e complicada. O atual livro de Jeremias é um aglomerado de unidades e complexos de textos originariamente independentes. O princípio de composição não é sempre claro; ordem cronológica e ordem de assunto se misturam. O texto massorético dispõe em geral nos capítulos 1–39 o material pertencente à época anterior e nos capítulos 40 –45 à época posterior à queda de Jerusalém (586 aC); os capítulos 46–51 conservam os oráculos contra os povos. O texto da Septuaginta transmitiu-nos uma outra ordem, provavelmente a primitiva (cf. a ordem de Isaías 1–39 e de Ezequiel): oráculos contra Judá e Jerusalém (Jr 1,4–25,13a), oráculoscontra as nações (Jr 25,13b-38; 46–51), profecias de ventura (Jr 26–35), sofrimentos de Jeremias (Jr 36–45) terminando com o apêndice histórico (Jr 52). Os 25 primeiros capítulos são principalmente agrupados em ordem cronológica (1–6 tempo de Josias, 7–20 tempo de Joaquim, 21–25 de época posterior).As profecias de ventura estão ordenadas por matéria, as narrações dos sofrimentos de Jeremias cronologicamente. O c. 52 corresponde a 2Rs 24,18–25,30 e quer mostrar a realização das ameaças de Jeremias. Repetições, diferenças de estilo e até concepções teológicas diversas indicam provavelmente a existência de várias fontes no livro de Jeremias. S. Mowinckel distinguiu três diferentes fontes. A fonte A contém oráculos em forma poética, que em substância remontam a Jeremias. O material desta fonte encontra-se principalmente nos c. 1–25. A fonte B encerra narrações sobre Jeremias redigidas em terceira pessoa e relata os sofrimentos do profeta (cf. Jr 36–45). Esta fonte é em geral atribuída ao secretário de Jeremias, Baruc. A fonte C é uma coleção de sermões proféticos em forma de prosa, originariamente de Jeremias, mas posteriormente trabalhados e adaptados pela escola deuteronomista. Pertencem a esta fonte as perícopes: Jr 7,1–8,3; 11,1-14; 16,1-13; 17,19-27; 18,1-12; 21,1-10; 22,1-5; 25,1-14; 34,8-22; 35. Um problema muito discutido na história da exegese jeremiana é a reconstrução do assim chamado rolo primitivo, escrito a mando de Jeremias e lido diante do rei Joaquim (cf. Jr 36). Já durante o exílio deve ter começado o processo de seleção e agrupamento das fontes, que se prolongou por muito tempo. No tempo da tradução da Septuaginta (séc. III aC) este processo ainda não estava encerrado.
Mensagem teológica: Para compreender a mensagem de Jeremias é necessário colocá-la dentro do seu ambiente. Jeremias começou a sua atividade profética em 627 aC. Os reinados de Manassés (698-643) e Amon (643-640) trouxeram para Judá um grande sincretismo religioso (cf. 2Rs 21,1-9; 23,4-14; Jr 7,17;8,2 etc.). A reforma deuteronomista, começada em 622 pelo piedoso rei Josias, não deu os frutos esperados, terminando praticamente com a morte deste monarca em 609. Embora depois de Josias a idolatria não tivesse voltado oficialmente ao templo, contudo ela estava arraigada no povo (cf. Jr 11,13.17; 12,16; 13,10; 16,18).O culto prestado ao Senhor estava deformado; a religião oficial e o povo confiavam cegamente nas promessas de eleição de Sião e da dinastia davídica, tradições tipicamente judaicas, esquecendo as exigências do Deus da aliança (cf. Jr 7,4s; 23,16s). Jeremias ao contrário colocava no centro de sua argumentação as antigas tradições do javismo: suas palavras eram orientadas pelas tradições tipicamente israelíticas do êxodo e do Sinai. Como filho da tribo de Benjamim (cf. Jr 1,1), uma das tribos do grupo de Raquel, tinha Jeremias contato maior com as tradições israelitas mais radicadas nas tribos do Norte. Jeremias vê o estado atual do povo em crassa contradição com as exigências de Deus. O povo trocara o Senhor por Baal (cf. Jr 2,1-37).
Os fracos –protegidos especiais do javismo (cf. Ex 23,9; Lv 19,13; Dt 24,14) –eram oprimidos e desprezados (cf. Jr 5,26-28; 7,5; 21,12; 22,3). Judá não procedia conforme o direito divino (mispat): violara a aliança com o Senhor. Jeremias acusa os pecados do povo e anuncia a vinda de um inimigo do norte, como castigo de Deus (cf. Jr 4,5-31). O apelo de Jeremias à conversão (sub) significa uma volta ao amor primeiro, uma volta à aliança (cf. Jr 2,2.13). Como Oséias, exige Jeremias do povo um amor semelhante ao amor da esposa para com o esposo,do filho para com o pai (cf. Jr 2,1-3; 3,1-5). Mas Jeremias sabe por experiência própria –sua pregação de mais de 40 anos ficou praticamente sem frutos –que a conversão é obra de Deus. Ele anuncia que Deus selará no fim dos tempos uma nova aliança (cf. Jr 31,31-34); uma aliança, em que Deus mesmo imprimirá sua lei no coração dos seus fiéis: “Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias –oráculo do Senhor. Colocarei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo”(Jr 31,33). Esta promessa marca um ponto culminante na mensagem de Jeremias.
Fonte(s):
Biblia Sagrada
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